
Medicação ou aceitação?
O Brasil é o segundo país que mais consome Rivotril no mundo. E isso me faz pensar em algo simples: A felicidade se tornou uma obrigação coletiva. Se você não dorme: Rivotril. Se você está mal humorado: Ritalina. Se você está ansioso: Lexotan. Se você está disperso: Tebonin. Se você não vive uma felicidade constante e obrigatória, você está adoecido. A “felitocracia” já existia antes das redes sociais, mas é fato dizer que ela ganhou expoentes universais de exposição, validação, aprovação e muito exibicionismo. Aliás, a “felitocracia” consiste em exaltar a vaidade em todas as suas nuances e em todas as ocasiões por meio da sua arma mais egocêntrica: o selfie. É preciso registrar tudo: indo dormir, acordando, levantando da cama, abrindo a geladeira, escolhendo a roupa, no elevador, no carro (de preferência exibindo a marca do automóvel no volante), enfim, é um passo a passo detalhista de como ser plena, rica, poderosa e feliz. Feliz............. Será? Será que somos felizes nesse mundo líquido (como dizia Bauman)? Ou estamos acumulando um débito infindável pelo custo de perder o individualismo, nossos valores e nossa liberdade? Mas postar não é ser livre? Pela semântica sim, mas pelo conceito comportamental: Postar é ser escravo da vaidade e da carência! Fotografamos e não vivemos. Postamos e existimos! Ficamos pendurados nas redes sociais nos momentos entre família, no momento a dois, no almoço com os colegas de trabalho, na estrada, perdendo a paisagem e os valores adjetivos, no Happy Hour, até num culto na igreja ou numa palestra no centro espírita. Estamos neuróticos em acreditar piamente que para existir é preciso aparecer. Mas ainda há um caminho: Acordar! Acordar de uma biografia infeliz resumida em postagens e falas solitárias. Acordar de uma ilusão em achar que 100, 1000, 5000 pessoas estão interessadas se você vai comer mamão ou sucrilhos no café da manhã. Acordar para o convívio presencial entre os que te rodeiam porque em breve (muito breve) não estarão mais por aqui. Acima de tudo, acordar para o equilíbrio, para a moderação e para o bom senso, porque ser virtual não é uma virtude.

SUICIDAS INDIRETOS
O silêncio soa como um universo paralelo ao nosso; está ali, aqui, em qualquer mísero espaço entre uma partícula de O2 e um átomo.
Apreciá-lo não precisa de convite, basta fazer algo simples e que todos nós temos homérica dificuldade: Calar-se. Desaprendemos a simplesmente respirar e ficar quieto ao mesmo tempo; todo mundo clama por uma fala, seja para mostrar seu entendimento, seja para ser participativo ou para se fazer necessário. É uma era onde todos suplicam serem necessários, porém, sendo cheios de vazio, estranho, não? Falas inúteis justificando o injustificável. O mundo ta barulhento mesmo, um barulho sem sentido, não tem harmonia, não é sincopado, nem composição lírica tem... Ta longe de ser algo que lembre uma música. Mas nesse barulho desafinado, e como resultado dessa equação de sons, dá pra ouvir espelhos se partindo e seus cacos criando um repique no chão. Milhares deles, como se fosse uma chuva torrencial de reflexos partidos em pleno solo. E o que vemos nos dá uma oportunidade única de reforma íntima: Imagens. Imagens partidas são egos rachados, deixe de lado sua vaidade desnecessária e preste atenção. Imagens não tem som, mas tem significado! É uma arte tal qual a Capela Sistina de Michelangelo, a Monalisa de Da Vinci, O Grito de Munch... Mas de todas, eu fico com a de Francisco Goya: "Saturno devorando um filho". Ela sintetiza o que nós fazemos com a nossa imagem egocentrista e com o silêncio. Precisamos aprender que muitas vezes vale mais a pena engolir o orgulho em prol do amor do que sofrer por deixá-lo morrer. Somos todos suicidas indiretos.
O tempo passa apressado
O tempo passa diante de tudo que se pode ver, tocar, cheirar e sentir. O tempo passa diante do espelho e diante dos nossos anseios em saber da inevitável transformação da aparência. (mais…)

Coração não dá em árvore
Hoje passei por uma rua onde avistei dois sistemas distintos de sobrevivência: Um coração e uma árvore.
Enigmático. Vivificante. Perturbador. Apaixonante.
Enigmático. (mais…)
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