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Medicação ou aceitação?

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29outubro 2024
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Medicação ou aceitação?

O Brasil é o segundo país que mais consome Rivotril no mundo.   E isso me faz pensar em algo simples: A felicidade se tornou uma obrigação coletiva.   Se você não dorme: Rivotril. Se você está mal humorado: Ritalina. Se você está ansioso: Lexotan. Se você está disperso:  Tebonin.   Se você não vive uma felicidade constante e obrigatória, você está adoecido.   A “felitocracia” já existia antes das redes sociais, mas é fato dizer que ela ganhou expoentes universais de exposição, validação, aprovação e muito exibicionismo.   Aliás, a “felitocracia” consiste em exaltar a vaidade em todas as suas nuances e em todas as ocasiões por meio da sua arma mais egocêntrica: o selfie.   É preciso registrar tudo: indo dormir, acordando, levantando da cama, abrindo a geladeira, escolhendo a roupa, no elevador, no carro (de preferência exibindo a marca do automóvel no volante), enfim, é um passo a passo detalhista de como ser plena, rica, poderosa e feliz.   Feliz............. Será?   Será que somos felizes nesse mundo líquido (como dizia Bauman)? Ou estamos acumulando um débito infindável pelo custo de perder o individualismo, nossos valores e nossa liberdade?   Mas postar não é ser livre? Pela semântica sim, mas pelo conceito comportamental: Postar é ser escravo da vaidade e da carência!   Fotografamos e não vivemos. Postamos e existimos!   Ficamos pendurados nas redes sociais nos momentos entre família, no momento a dois, no almoço com os colegas de trabalho, na estrada, perdendo a paisagem e os valores adjetivos, no Happy Hour, até num culto na igreja ou numa palestra no centro espírita.   Estamos neuróticos em acreditar piamente que para existir é preciso aparecer.   Mas ainda há um caminho:   Acordar!   Acordar de uma biografia infeliz resumida em postagens e falas solitárias.   Acordar de uma ilusão em achar que 100, 1000, 5000 pessoas estão interessadas se você vai comer mamão ou sucrilhos no café da manhã.   Acordar para o convívio presencial entre os que te rodeiam porque em breve (muito breve) não estarão mais por aqui.   Acima de tudo, acordar para o equilíbrio, para a moderação e para o bom senso, porque ser virtual não é uma virtude.          

06agosto 2024
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Amores e dores

De amores e dores, todos conhecem um pouco. Porém, mesmo dentro do amor há limites e a ausência corrói o sentimento aos poucos. Parafraseando Caio A. Leite: eu gosto de você, mas você erra ao pensar que eu vou esperar para sempre, ao pensar que eu tenho todo tempo do mundo.   Mas há um paradoxo: Se nada resiste ao tempo, como temos todo o tempo do mundo? Qual a razão de persistir?   O nome disso se chama esperança!   A esperança é uma senhora teimosa, que não respeita nem o tempo, mas entende que a sua persistência invoca a terceira palavra deste texto: dores, no entanto, este sofrimento, passa por um ciclo interminável de cura e dor, ao qual eu chamo de disciplina.   A disciplina é o ato de não jogar fora todas as chances de ser feliz só porque uma não deu certo, é entender que o amor sem esperança só possui um cenário: o refúgio da morte.   A disciplina é entender (e muitas vezes esperar) que o mundo é uma esfera e portanto, dá voltas.   A disciplina é dar o seu melhor, se entregar sem pensar no reembolso, no troco, na recompensa, Aliás, quem pensa em troco, geralmente vive de esmolas, a disciplina e a esperança não aceitam migalhas.   Mas a disciplina sem esperança se torna um investimento de energia perigoso: é necessário vislumbrar algum tipo de resultado.   Sem esperança, a disciplina se perde entre mudar o que precisa mudar e não mudar o que já foi mudado.   É deixar de procurar, de almejar, de conquistar e descobrir que você não merece correr atrás daquela pessoa que só foge de você, a vida não pode ser uma inesgotável brincadeira de “esconde-esconde”, é preciso mesclar com o “pega-pega” também.   A vida (e o tempo) são curtos para superficialidades, se você acredita no seu sonho, se você acredita no caminho que optou, na pessoa que escolheu, na carreira que se identificou, não há outra alternativa pra você a não ser o de perseverar.   Perseverar sem medo da exposição, da fragilidade sentimental que isso implica e, embora a perseverança esteja além daquilo que os nossos olhos são capaz de ver, é preciso ter um outro coadjuvante entre disciplina e esperança: A fé!

30julho 2024
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Você se ama ou ama se…

Um dos maiores equívocos que cometemos é o de alimentar expectativas, e é no campo do amor que isso se evidencia mais.     No amor, por exemplo, procuramos a vida inteira a pessoa que queremos passar o resto de nossas vidas, quando na verdade, o mais assertivo, seria o de se tornar a pessoa que você deseja passar o resto de sua vida e, com certeza, postulantes surgirão.     O amor se encontra na naturalidade de cada um e, por ser único em cada pessoa, não deve ser julgado ou moldado à maneira do outro, isso é sentimento de posse, uma condição simplista e mal interpretada do amor.     Entretanto, nos dias atuais, estamos confundindo naturalidade (liberdade de ser individual) com superficialidade (egolatria e individualismo), queremos comandar! Queremos impor nossas necessidades e jogar nosso histórico de fracassos e sombras internas no colo do outro. Vale lembrar que embora não haja matemática no amor, existe uma regra imutável: para amar ao próximo, é preciso se amar antes.     Carl Gustav Jung é autor de uma frase que sintetiza muito a dificuldade de nos relacionarmos nos dias atuais: "Conhecer a sua própria escuridão, é o melhor método para lidar com a escuridão dos outros". Perceba peculiarmente nessa frase que a questão é "lidar com a escuridão dos outros" e não "conhecer ou entender a escuridão dos outros". Muitas vezes você não terá acesso a este "porão" da pessoa e , a bem da verdade, muitos nascem, crescem e morrem sem nem ter conhecimento desse porão.     Por isso, fica claro e nítido que amar é ter empatia e respeito por tudo que vem do outro, principalmente pelo seu "porão", é entender que se ele ainda não pegou vassoura e a pá pra dar aquela faxina no porão dele, é porque a sujeira ainda não incomoda, ao invés de se preocupar com a obrigação que é dele, atenha-se a sua! Ninguém tem porão livre de poeira e de sujeira nessa vida, entender o contrário disso, é viver uma ilusão gerada pelo ego.     Em linhas gerais, amar é se tornar, gradativamente, um ser pleno, ou seja, alfabetizar suas emoções de acordo com as emoções e sensações do outro. É entender que amar não é encontrar a pessoa certa, é se transformar na pessoa certa, porque amar é transmutar, é traduzir, é passar (quando útil) por uma metamorfose em busca de crescimento e maturidade para, acima de tudo, continuar seguindo, juntos, como seres individuais, não individualistas.      

23julho 2024
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Perdoe!

Perdoar não é estancar o ferimento, nem tampouco curar a dor.

Perdoar é sentir a dor, mas não cutucá-la; é dar um outro significado à ela, enquanto ela dói, até acabar a dor.

Perdoar não é se diminuir ou ser cúmplice do erro alheio. Você não pode falar pra quem te magoou: "ah, não foi nada, jaja passa", você tem direito, inclusive, de pedir uma pausa, para processar e ressignificar.

Perdoar nem sempre é confiar; acreditar 100% que a pessoa não fará de novo é cometer dois erros conseguintes: a ingenuidade e a projeção.

Perdoar não significa perdoar mil vezes o mesmo erro, isso não é ser resiliente, santo ou perfeito, é ser gado manso, cada gesto novo de perdão, necessita de uma nova mancada.

Perdoar é perdoar, sem escolher posições ou pedidos mirabolantes, quem errou precisa de compreensão, não de escravidão.

Perdoar não modifica o estado das coisas, elas não voltam no tempo.

Perdoar não significa se reconciliar, você pode perdoar uma pessoa e excluí-la do seu círculo social.

Perdoar possibilita avanço, maturidade, desbloqueio, libertação.

Você não pode ser pai se não perdoar seu pai, você não pode se tornar mãe, se não aprender a perdoá-la, você não pode ser um grande empreendedor se não aprender a perdoar falhas da sua equipe.

A gente só se reconhece quando perdoa, a gente só tem oportunidade quando perdoa, porque perdoar é dar-se uma chance a você mesmo porque você, inexoravelmente precisará de perdão, por algumas centenas de vezes na vida.

Perdoar é a construção de um viaduto onde você passará.

Perdoar é o caminho mais curto e inteligente que você pode percorrer, porque estamos aqui, nesta jornada, condenados e fadados a amar e a fazermos o bem.

Recusar a prática do perdão é alongar este caminho, apenas isso.

16julho 2024
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Sair nem sempre é a melhor saída

Ao longo da nossa jornada, carregamos uma série de dependências e fugas psicológicas das quais, muitas vezes, nem sempre temos acesso ou mesmo entendimento disso.   As fugas nos ajudam a sair da realidade quando ela está pegando pesado, mas fugir demais é viver uma miragem afetiva, é viver uma ilusão de pseudo felicidade plena, e as redes sociais nos impulsionam a isso.   Mas que mal faz investir no virtual por horas a fio? Que mal faz consumir a vida alheia por meio das redes sociais? Que mal faz se chafurdar no videogame ou nas inúmeras séries que existem hoje?   Eu inverto a pergunta: Que bem que isso faz?   É tão fácil sair de um relacionamento, é tão fácil encontrar um culpado; por que não se sentar e dialogar? Por que não ficar e tentar de novo? Reconstruir, reconfigurar, reestruturar este casamento; essa história que levou anos para ser construída não pode ter o privilégio de uma, duas ou três oportunidades?   Sair, pular fora, fugir, abandonar, parece ser sempre a solução mais assertiva, isso porque nosso ego não permite uma zona de tranquilidade coletiva, e sim, uma zona de conforto individualista.   Pura ilusão! A pessoa pula fora imaginando que o mundo lá fora tá repleto de oportunidades, de pessoas do bem, de pretendentes atrativos e emocionalmente saudáveis.   Num mundo onde o investimento pela ausência está cada dia mais latente e pulsante, não é válido se apegar pelo apreço presencial? Sentir a energia da presença, se dedicar um ao outro e não ao Whatsapp que você não para de visualizar?   É triste a pessoa que está do seu lado pensar que você não quer estar do lado dela, que as redes sociais são mais interessantes que você, que qualquer assunto virtual é mais importante que a presença dessa pessoa.   Tenho a impressão que as inúmeras oportunidades que temos por minuto no dia a dia está criando em nós uma espécie de autoritarismo e ufanismo e, por isso, a permanência dá lugar ao impermanente, está mais fácil trocar do que investir, substituir por perseverar, desistir do que persistir.   Mas o resultado das nossas escolhas nos espera adiante, e, novamente, nos apegaremos avidamente a alguma dependência ou fuga psicológica.   Percebeu que o texto foi cíclico? Começou e terminou com o mesmo questionamento? Que deu uma volta e retornou do mesmo ponto de início?   Pois bem, se você não se atentar, sua vida também será assim.        

28maio 2024
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Humanizar é a palavra de ordem

São pelo menos 7 guerras acontecendo agora, no mundo, isso sem contar na matemática social negativa, com números assustadores: Cerca de 25% do mundo não tem acesso a água potável, só no Brasil, são 33 milhões.     Dezenas de conflitos acontecendo enquanto você toma o seu café da manhã apreciando o sol que perpetua lá fora, além do desmatamento (em escala evolutiva), enquanto você reclama da fechada que levou no trânsito.     Em tempo: “desmatamento em escala evolutiva”: Será que somos uma espécie tão inteligente assim?     Vivemos constantemente em um cenário de contrastes: zilhões sobrevivendo na indigência, poucos vivendo na opulência.     E muitos (em pleno século 21) ainda se questionam: Mas o que eu tenho a ver com a penúria do outro?     Diminuir a dor do outro deveria ser uma obra de arte, e na verdade é! Mas, em analogia aos grandes artistas da humanidade, são poucos que existem ou que existiram.     Está na hora da sociedade se tornar uma imensa egrégora de artistas, muito mais amplo que o Museu do Louvre, em Paris.     Já passou da hora de abandonar o automatismo pragmático de olhar somente para o umbigo e enxergar o outro com “olhos de ver”, com empatia, com solenidade, com zelo.     Empatia: a arte de abrir o coração para o próximo e sentir o que ele sentiria, caso estivéssemos vivenciando a sua situação.     A empatia abrange gestos que vão além do “dar um dinheiro pra quem precisa”; embora em muitos casos, a caridade material é fundamentalmente necessária, masssss, agradeça! Se você é um privilegiado, que tem a geladeira farta, saúde, casa, filhos na escola e uma cama bem quentinha, agradeça!     Agradeça, mas contribua!     Se você faz parte desse contraste notório na multidão, aumente seu grupo, enriqueça sua força, faça alguma coisa para que o outro também seja um contraste positivo, compartilhar o bem é potencializar vidas alheias.  

21maio 2024
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Verdade insólita

Toda pessoa que aparece por aqui fazendo a humanidade pensar só se lasca! Sócrates. Trouxe ao mundo a filosofia humana, fez a gente refletir, enfrentar e questionar nossos valores, verdades e fundamentos, baseado na argumentação e no diálogo (algo que nos falta até hoje). Foi preso, acusado de corromper a sociedade e desrespeitar os Deuses por práticas inovadoras, morreu envenenado, obrigado a comer uma planta chamada Cicuta. Pitágoras, grandioso matemático, filósofo e astrônomo, criador do teorema que te tirou o sono nas provas de matemática em tempos de colégio (o quadrado da hipotenusa), morreu num campo de feijão por soldados, acusado de violar os ensinamentos da época. Lavoisier, pai da química, morreu na guilhotina! Mahatma Gandhi, um dos maiores ativistas pacíficos do mundo, desenvolveu o método de manifestação não-violento, libertando a Índia do regime colonial inglês, morreu a tiros por líderes políticos.   E claro, não me xingue, deixei por último porque foi o mais foda de todos: Jesus Cristo!   O maior educador, filósofo, pacificador, professor, humanista, salvador, redentor, mestre, dentre muitos outros títulos. Teve seu legado interrompido pendurado numa cruz.   Ainda hoje, ou até hoje, me pego a questionar se realmente levam seus ensinamentos a sério. Nos dias atuais, onde somos abalizados por likes e views pelos "seguidores do aplauso", talvez se ele aparecesse em algum comercial de aposta on-line de futebol, no paredão do Big Brother ou dançando funk em algum camarote, poderia ter alguma moral.   Por mais utópico, insólito ou distópico que pareça, as pessoas abraçam a estupidez e a imbecilidade do que tem na mídia e se esquecem daquilo que realmente enaltece, transforma, modifica. Nunca foi tão exigido de nós algo tão próximo dos nossos dedos: O autoconhecimento e a reforma íntima, mas a gente prefere o prazer de fugir da dor que a responsabilidade nos impõe.   Aquele que se responsabiliza pelo que é realmente seu, investiga a si mesmo e tem a coragem de mudar e de se adaptar ao que Darwin nos ensinou, mas é mais cômodo e "fascinante" manter a bunda no acolhimento ilusório do sofá ou da poltrona.   A caverna (não a de Platão) é uma fonte inesgotável de prazer e gozo para aqueles que fogem covardemente da luz.

24abril 2024
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SAUDADE MAL ESQUECIDA

Quando crianças, nossos pais nos arremessavam para o alto e tínhamos uma sensação indescritível de alçar voo, de agarrar o ar ou mesmo de sentir que naquele momento, nada se desprenderia de nós. Tínhamos uma sensação de perigo envolta de uma certeza plena de que a aterrissagem seria nos braços dele... Com o passar dos anos, nossa massa corpórea já não permitia mais tal “viagem”- em contrapartida - aprendemos com essas doces memórias que o nosso pensamento sobrepuja qualquer ação do tempo (passado, presente e futuro), menos a ação do peso.   O peso chamado saudade que só aumenta a medida em que os anos discorrem na cronologia dos nossos dias, mas ainda assim, é um “peso leve; melhor o peso leve da saudade do que o peso de um arrependimento, de um remorso, de culpa, enfim...   Voltando aquela nostálgica sensação de super-herói, o que quero dizer é que, quando a tua vida subestimar a força da tua existência, quando tudo estiver denso e sem uma visão aparente do caminho, lembre-se da forma que você levitava e sorria escancaradamente quando o seu pai te fazia um super herói. Mudar a paisagem - mesmo que por breves instantes - nos faz acreditar que ainda sim, podemos ter super poderes para mudar o nosso mundo e seguir adiante com as lembranças saudosas e acolhedoras na bagagem.   A ausência apaga as pequenas paixões e fortalece as grandes - François La Rochefoucauld  

15abril 2024
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ESPELHOS INVERTIDOS

O espelho; A perniciosa invenção da vaidade humana em uma escala involutiva desproporcional.   Antes, é bom deixar claro que aos que vislumbram a aparência como fonte de sabedoria e crescimento, este texto não lhes cabe.... por enquanto.   Voltando ao espelho, só em dar uma olhadinha nele já temos uma verdade indefectível: o que você está vendo é transitório!   “O ser humano é um cadáver adiado” – Fernando Pessoa.   Somos perecíveis, passageiros, efêmeros, mas será que temos convicção disso?   Nesse mundo de vaidades nocivas, o espelho, ou o reflexo que ele transmite já não se suporta mais em um mero quarto, espelho ou sala de estar....   As pessoas se perderam de vista para estarem na vista de outras pessoas por meio das câmeras cheias de filtro de um smartphone; a gente se olha mil vezes pra fazer uma selfie, mas será que olhamos além do espelho ou desse artefato que tanto massageia o ego?   Esse mundo editado e de aparências, que te esconde as dores do caminho e que te apontam os atalhos fáceis para o ilusionismo, ou seja, ser o que não se é e que talvez nunca será, faz com que pensemos que o mundo é um imenso devedor, que nos deve algo.   Você acha que o mundo lhe deve algo quando destrata um funcionário porque ele não fez o que você pediu simplesmente porque não sabe ler mentes.   O mundo lhe deve algo quando você acha que está num patamar acima de outros e como tal, você tem o direito de desdenhar e humilhar os mesmos.   O mundo lhe deve algo quando você economiza sorrisos e gentilezas no elevador ou na rua, simplesmente porque você acha que está acima da própria educação e dos bons modos.   O mundo lhe deve algo quando você acha que pode tudo porque acha que é especial ou mais valioso que outro ser humano.   Entretanto, existe uma verdade tão indefectível quanto a primeira verdade que você enxerga ao se deparar com o espelho:   Não importa o quão você acredite na sua competência, nas suas habilidades, na sua inteligência, nas suas qualidades, existe algo tão óbvio quanto o seu prazo de validade aqui na terra:   Sempre haverá alguém mais competente que você, sempre haverá alguém mais habilidoso e inteligente que você, sempre haverá alguém que você irá aprender bem mais do que ensinar.   Não importa o tamanho que você acha que tem, sempre existirá alguém maior que você e todos nós, indubitavelmente, do pó viemos, do pó voltaremos.   ... Logo mais nos transformaremos em um cadáver adiado.

27fevereiro 2024
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O DEUS DE SPINOZA

“Pare de ficar rezando e batendo no peito! O que quero que faça é que saia pelo mundo e desfrute a vida. Quero que goze, cante, divirta-se e aproveite tudo o que fiz pra você.   Pare de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que você mesmo construiu e acredita ser a minha casa! Minha casa são as montanhas, os bosques, os rios, os lagos, as praias, onde vivo e expresso Amor por você.   Pare de me culpar pela sua vida miserável! Eu nunca disse que há algo mau em você, que é um pecador ou que sua sexualidade seja algo ruim. O sexo é um presente que lhe dei e com o qual você pode expressar amor, êxtase, alegria. Assim, não me culpe por tudo o que o fizeram crer.   Pare de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo! Se não pode me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de seus amigos, nos olhos de seu filhinho, não me encontrará em nenhum livro.   Confie em mim e deixe de me dirigir pedidos! Você vai me dizer como fazer meu trabalho?   Pare de ter medo de mim! Eu não o julgo, nem o critico, nem me irrito, nem o incomodo, nem o castigo. Eu sou puro Amor.   Pare de me pedir perdão! Não há nada a perdoar. Se eu o fiz, eu é que o enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso culpá-lo se responde a algo que eu pus em você? Como posso castigá-lo por ser como é, se eu o fiz?   Crê que eu poderia criar um lugar para queimar todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que Deus faria isso? Esqueça qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei, que são artimanhas para manipulá-lo, para controlá-lo, que só geram culpa em você!   Respeite seu próximo e não faça ao outro o que não queira para você! Preste atenção na sua vida, que seu estado de alerta seja seu guia!   Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é só o que há aqui e agora, e só de que você precisa.   Eu o fiz absolutamente livre. Não há prêmios, nem castigos. Não há pecados, nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Você é absolutamente livre para fazer da sua vida um céu ou um inferno.   Não lhe poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso lhe dar um conselho: Viva como se não o houvesse, como se esta fosse sua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não houver nada, você terá usufruído da oportunidade que lhe dei.   E, se houver, tenha certeza de que não vou perguntar se você foi comportado ou não. Vou perguntar se você gostou, se se divertiu, do que mais gostou, o que aprendeu.   Pare de crer em mim! Crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que você acredite em mim, quero que me sinta em você. Quero que me sinta em você quando beija sua amada, quando agasalha sua filhinha, quando acaricia seu cachorro, quando toma banho de mar.   Pare de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra você acredita que eu seja? Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que me agradeçam. Você se sente grato? Demonstre-o cuidando de você, da sua saúde, das suas relações, do mundo. Sente-se olhado, surpreendido? Expresse sua alegria! Esse é um jeito de me louvar.   Pare de complicar as coisas e repetir como papagaio o que o ensinaram sobre mim! A única certeza é que você está aqui, que está vivo e que este mundo está cheio de maravilhas.   Para que precisa de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procure fora. Não me achará. Procure-me dentro de você. É aí que estou, batendo em você.”

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